Mais pornô para elas

Se você ainda acha que entretenimento adulto é coisa de homem, é melhor pensar de novo

Douglas Sousa e Jéssica Eufrásio

O que as mulheres querem? Essa pergunta, que tem cara de nome de filme, título de reportagem e tema de roda de conversa, também foi a dúvida que motivou duas investigações feitas pelo segundo maior site de compartilhamento de vídeos pornôs da internet, o Pornhub. Uma delas mostrou, inclusive, que as mulheres brasileiras representam a maior parcela feminina de visitantes da página.

Tudo começou em setembro de 2014. O website realizou uma análise sobre os temas, atrizes e atores mais procurados por mulheres do mundo inteiro. Além de mostrar que 23% de sua audiência era composta por elas, o levantamento ainda revelou as quatro categorias mais assistidas por esse público no endereço. Gay lésbico e gay masculino ficaram em primeiro e segundo lugares, respectivamente; teen (jovens de 18 ou 19 anos) seguiu em terceiro; e a categoria para mulheres, em quarto. Já entre os termos mais pesquisados, as buscas que figuraram no topo foram lésbico, em primeiro, sexo a três em segundo e, em terceiro, squirt (ejaculação feminina).

Neste ano, no mês de julho, o Pornhub se juntou ao RedTube, outro portal gratuito de conteúdo adulto, para obter novos dados referentes às suas audiências, em especial a feminina. As informações foram coletadas anonimamente pela plataforma de estatísticas demográficas da Google, o Google Analytics, que analisou e forneceu um perfil das visitantes. Esses resultados foram baseados na média de acessos que os dois sites recebem juntos: mais de 37,5 milhões por dia em todo o mundo (veja infográfico abaixo).

Dentre todas as internautas que acessaram os dois sites no período de setembro de 2014 a julho de 2015, as brasileiras ficaram empatadas em primeiro lugar com as filipinas. A quantidade de visitantes do sexo feminino de ambas as localidades foi de 35%. Esse número, em comparação à média de mulheres dos 21 países analisados, colocou o Brasil e as Filipinas à frente por uma folgada margem: 11% a mais de diferença. Já na pesquisa por categoria, os três termos mais procurados no ano passado permaneceram nas mesmas posições.

Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), apontou que os dados do levantamento são discutíveis porque não oferecerem detalhes sobre quem elaborou a maior parte dos filmes assistidos. “Os pornôs que são produzidos dentro do imaginário masculino e patriarcal não são subversivos. Os números mostram que elas assistem mais, mas isso me diz pouca coisa”, assinala.

A docente também relata que a quantidade de produtos culturais simbólicos e feitos de mulheres para mulheres ainda é pequena. Para ela, um pornô feminista, por exemplo, seria capaz de oferecer a possibilidade da troca de experiências a partir do ponto de vista feminino. “Nesses produtos, o que nós temos são as imagens delas construídas pelo olhar de um homem, e isso aliena a mulher no que diz respeito à relação dela com ela mesma.”

Cine privê

“Porque homem pode, mulher não pode, e sempre teve isso.”
Com base no que ouve dos visitantes, é assim que Valeska Paiva, gerente do Cine Paranoá, em Taguatinga, explica o porquê de as mulheres serem menos frequentadoras de cinemas para adultos. A frase dela ilustra a visão de uma sociedade que ainda vê de forma preconceituosa a mulher que se diz consumidora de pornografia. Segundo ela, o cinema recebe, em média, apenas três por semana. O público masculino, tanto hétero quanto homossexual, é o maior consumidor. No segundo caso, a privacidade e o anonimato são os aspectos que mais pesam na escolha do local.

A pesquisadora em sexo, pornografia e temperamento Laura Guerim critica esse aspecto da indústria pornô: “o material mais acessado ainda é extremamente sexista e heteronormativo”, isto é, prioriza o público heterossexual e masculino em suas produções. Para ela, as mulheres estão consumindo mais pornografia por questões de libertação ou facilidade de acesso, e não porque o conteúdo, em si, lhes agrade.

Enquanto para o público LGBT o cinema adulto funciona como refúgio do preconceito sofrido diariamente, o mesmo parece não valer para as mulheres, que não se sentem tão à vontade em um ambiente predominantemente masculino. “Geralmente, as mulheres aparecem acompanhadas e preferem vir apenas quando há outros casais na sessão”, conta Valeska. A gerente ainda ressalta a preocupação do público feminino com os filmes que serão exibidos. “Quando elas vêm, normalmente querem que um bom filme esteja passando.”

Se o conteúdo e a qualidade do produto se refletem, de fato, na escolha das mulheres, a indústria pornográfica está mesmo preparada para a demanda de um público consumidor cada vez mais ativo e exigente? As opiniões podem divergir: enquanto algumas mulheres acreditam que os filmes atuais servem para colocar a libido em dia, outras sentem falta de produções mais bem elaboradas, aquelas de deixar todos os fios de cabelo do corpo em pé.

A pesquisadora na área de pornografia e feminismo Camilla Santana explica que, para entender o motivo de as mulheres estarem consumindo mais filmes do gênero, é preciso, primeiramente, entender o que é a pornografia. “Sendo ligado ao mercado ou não, esse novo espaço feminino no ramo é, inevitavelmente, um espaço que se abre para novas representações de sexualidade e de sexo.” No entanto, Camilla explica que o número de pesquisas sobre o assunto tendo o Brasil como cenário ainda é muito reduzido, e isso pode dificultar o entendimento de resultados como esse.

Erika Lust é uma das pessoas que tem colhido bons frutos graças ao seu trabalho com essas representações. Na palestra de nome É Hora de o Pornô Mudar (em tradução livre), realizada no TEDx Vienna, a diretora feminista fala sobre a forma que atua. Segundo Erika, a escolha de se tornar cinegrafista permitiu a ela explorar o sexo de uma perspectiva feminina. “O conteúdo adulto, obviamente, tem o poder de excitar, mas também tem o poder de educar e de inspirar”, expõe.

A cineasta sueca complementa dizendo que o pornô funciona como uma ferramenta de instrução sexual, o que, para ela, também impacta na educação de gênero. Ela observou o fato quando se deu conta de que a pornografia era um tipo de discurso do qual os homens eram os únicos participantes. “Qual é a fonte de inspiração dos jovens? Uma pornografia ruim, errada e machista? É por isso que é hora de o pornô mudar.”

Você vê?

Assumir que assiste filmes pornôs ainda é motivo de vergonha para muitas mulheres. Neste caso não foi diferente. A secretária Érica Fernandes*, 27 anos, ficou acanhada com a pergunta num primeiro momento, mas logo respirou fundo e respondeu: “sim, sempre que me convém”.

Érica faz parte do público feminino, declarado ou não, que assiste pornô e que é exigente com o conteúdo. “Nós, mulheres, não somos iguais aos homens, precisamos de mais lenha para acender o fogo”, conta. Apesar de se dizer consumidora das produções pornográficas, a secretária é categórica ao falar que não se sente representada nas “historinhas” que ilustram as tramas do entretenimento adulto. “Eu não me vejo na maioria desses filmes”, ressalta ela.

Já a preferência da estudante de jornalismo Anastácia Cury*, 21 anos, é por não assisti-los. Alguns dos motivos que fazem a universitária evitar filmes do gênero pornô são a forma que o sexo costuma ser reproduzido e o modo como a mulher é representada. “Eu acho nojento e violento. É como se ela fosse vista apenas como um objeto sexual”, argumenta.

Anastácia se diz favorável a um ato sexual agradável, no qual as duas pessoas envolvidas são tratadas como seres humanos providos de sentimentos. “Prefiro levar o sexo como algo mais sério, reservado. Não vejo necessidade de ver filmes assim porque, geralmente, são duas ou mais pessoas que não se gostam. São atores que se sujeitam à cena.”

Apesar de assistir de vez em quando, vídeos pornôs não têm muito espaço na  rotina de Priscila Santos*, 25 anos. Ela conta que vê de uma a duas vezes por mês, tanto para se satisfazer sozinha quanto para apimentar o relacionamento. “Tenho preferência pelos filmes amadores, ou que simulam isso, porque são muito mais reais”, declara. O fato de muitos serem gravados com casais comuns geram mais interesse e identificação por parte dela.

Para Priscila, os filmes de ficção são diferentes dos amadores. Ela conta que nos primeiros, além de situações irreais serem apresentadas, as mulheres costumam ser tratadas de forma violenta. “Os amadores, mesmo quando têm algo de violento, não mostram violência de verdade, mas sim aquela de brincadeira que todos os casais fazem na vida real.”

Com a engenheira mecânica Adriana Morais*, 34 anos, acontece algo diferente: além de não sentir nada, os filmes não despertam seu interesse. Para ela, os textos e os roteiros repetitivos são apenas alguns dos motivos que enumera para o fato de não assistir. “Não gosto de ver ninguém fazendo. Meu tesão vem do toque, não somente daquilo que vejo.”

Ainda segundo Adriana, são os aplicativos de troca de mensagem instantânea que fazem com que, vez ou outra, ela veja algo acidentalmente. Mesmo assim, a engenheira prefere não assisti-los. Além disso, a quantidade de tarefas que tem para realizar no cotidiano faz o contato ser ainda menor. “Prefiro usar meu tempo fazendo”, conta.

*Nomes fictícios

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Para saber mais

Assista à palestra de Erika Lust no TEDx Vienna (legendas disponíveis em português):
It’s time for porn to change | Erika Lust | TEDxVienna
https://www.youtube.com/watch?v=Z9LaQtfpP_8

Confira também um dos sites da diretora (em inglês), no qual, a cada mês, duas “confissões” postadas pelos usuários cadastrados são escolhidas e transformadas por ela em curtas-metragens eróticos:
XConfessions (+18)
http://xconfessions.com/about-xconfessions/

O site ada.vc criou um guia temático separado por tipos de sites e categorias para facilitar a busca. Veja abaixo:
Ada.vc – A internet erótica das mulheres (+18)
http://ada.vc/pornografia-para-mulheres/

Foto de capa: Tissyane Scott