Muda o trânsito e a cidade

Projeto de sistema binário nas avenidas Comercial e Samdu vai afetar a rotina de Taguatinga

Gabriella Bertoni e Rodrigo Mendonça

Comercial Norte. Sol forte às 15h30. É fácil encontrar uma vaga para estacionar. Trânsito calmo, sem buzinas ou engarrafamentos. Quem é morador ou trabalha em Taguatinga, sabe que essa é uma lembrança distante. A realidade da cidade hoje é de ruas estreitas, trânsito lotado e falta de vagas. As filas duplas se tornaram comuns, bem como os pequenos acidentes nos inúmeros cruzamentos.

No início de julho, foi realizada uma audiência pública para apresentar à população o projeto de implantação do sistema binário – que consiste em transformar vias paralelas de mão dupla em sentindo único – nas avenidas da cidade. O resultado foi o pedido de algumas associações locais para revisarem o documento. As mudanças apresentadas não foram suficientes para aprovação imediata e aqueles que estavam presentes optaram por esperar a troca do asfalto da Samdu Sul/Norte para, só assim, o sistema binário começar a funcionar.

Para a aposentada Vera Lúcia, 63 anos, as mudanças vão melhorar o trânsito, mas, na hora de pico, as transversais vão ficar complicadas. “Todo mundo vai querer passar pelas mesmas ruas”, diz. Francisco Soares, 48 anos, é vice-diretor de uma escola em Taguatinga Norte e acredita que a inversão é válida. “O trânsito hoje é muito tumultuado. Nós temos visto muitos acidentes em virtude da falta de uma faixa de separação entre as pistas”, afirma. Comerciantes criticam a alteração prevista para o trânsito. Edvaldo Sousa, 45 anos, é cabelereiro na Samdu Norte. Ele não sabia que as duas principais avenidas da cidade vão sofrer alterações e se mostra contrário às propostas. “Vai piorar para os comerciantes. Só pensaram nos carros, não nos pedestres. Para eles, vai ficar muito ruim”, reclama.

Experiência de sucesso

Águas Claras, que já fez parte da Administração de Taguatinga, passou por alterações similares no tráfego das duas principais avenidas da cidade em 2009. Até então, as avenidas Araucárias e Castanheiras eram vias de mão dupla.
Com a mudança, a Araucárias passou a ser mão única no sentido Taguatinga/Park Way, enquanto a Castanheiras faz o sentido contrário. Em nota, a administração de Águas Claras informou que não houve necessidade de estudo prévio para embasar as alterações no tráfego local, já que a proposta estava prevista no projeto da cidade e, se não tivesse sido feita, o trânsito local hoje seria caótico.

Racionalizar

Para o professor da Pós-Graduação em Transportes da UnB, Paulo Cesar Marques da Silva, a solução para o problema do trânsito de Taguatinga é reduzir o número de veículos circulando e aumentar o uso do transporte coletivo. Ele defende que o caminho não é atender a demanda dos motoristas, mas, sim, reduzir a necessidade do uso de carros na região.

Cidade conceito

Segundo o administrador de Taguatinga, Ricardo Lustosa, a implantação do sistema vai possibilitar a construção de 27 km de calçadas e ciclovias em toda a extensão das duas avenidas. “A mudança dará aos moradores e frequentadores da cidade não só mais fluidez ao trânsito, mas, também, uma outra forma de locomoção”, esclarece. Ele acrescenta ainda que 60% da população local trabalha na própria região administrativa e as ciclovias vão ajudar as pessoas a optar pela bicicleta como forma de transporte.

Lustosa garantiu que o plano de adequação das linhas de ônibus foi finalizado pelo DFTrans e que a população não terá problemas quanto à disponibilidade de transporte público na região. “As linhas circulares serão realocadas para atenderem o Pistão Sul/Norte, sem prejudicar o atendimento nas duas avenidas”, explica o administrador.
Segundo ele, a implantação do sistema está prevista para o final de outubro, data possível para que o novo asfalto da Samdu esteja pronto. “O plano não é simplesmente resolver o problema do trânsito na cidade. É trazer Taguatinga para o centro das discussões sobre mobilidade e transformá-la em uma cidade conceito”, concluiu Ricardo Lustosa.

 

Foto de Capa: Charles Jacobina