Crotalaria: ela pode ajudar?

Planta que atrai predadores do mosquito da dengue é utilizada em municípios . Mas estudos divergem e a eficácia ainda não foi comprovadado País

Gabriel Silveira

A dengue é uma doença grave, que se espalha rapidamente e está entre os principais problemas de saúde pública do mundo. Estudo recente, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta que cerca de 390 milhões de infecções por dengue são registradas a cada ano. No Brasil, de acordo com levantamento da Secretaria de Vigilância em Saúde, até o primeiro dia de agosto deste ano, já foram confirmados 614 mortes por conta da doença – aumento de quase 58% em relação aos 390 registros do ano passado.

A receita para impedir a proliferação do vírus é simples: basta conter a ação do vetor, o mosquito Aedes aegypt, evitando o acúmulo de água em locais que possibilitem sua reprodução.

Além das medidas educativas, que orientam a população sobre os cuidados de prevenção necessários, vários municípios têm adotado o plantio de crotalárias (foto acima) – mais especificamente das espécies spectabilis e juncea – como um complemento no combate ao mosquito transmissor. Essas plantas são tradicionalmente utilizadas em práticas agrícolas. No combate à dengue, as flores da crotalária, que possuem coloração amarela, funcionariam como um atrativo para libélulas. Elas seriam predadoras do mosquito transmissor do vírus da dengue e também das larvas – quando estão neste estágio.

Mosquitos Aedes Aegypti, transmissor da dengue e de outras doenças (Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)
Mosquitos Aedes Aegypti, transmissor da dengue e de outras doenças (Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)

Mas a falta de informações que meçam, ou comprovem a eficiência da planta na contenção ao vetor, torna o método frágil. A engenheira agrônoma e pesquisadora do Instituto Agronômico, em Campinas, Elaine Wutke, organizou a produção do relato Aedes aegypti: controle pelas crotalárias não tem comprovação científica, publicado pelo instituto, em fevereiro de 2015. “O que preocupa é o perigo da divulgação indiscriminada dessa informação, já que não há qualquer comprovação científica da eficácia dessa prática agrícola como um método de controle do mosquito da dengue”, afirma a engenheira agrônoma.

“As pessoas estão bem informadas, elas sabem o que deve ser feito. O grande desafio é criar estratégias para que elas se mobilizem. Se elas sabem o que fazer, por que não fazem?”, indaga Clélia Parreira, professora de Saúde Coletiva e membro do grupo de Planejamento e Ações de Combate à Dengue da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo Wutke, a iniciativa em reunir as contribuições de pesquisadores que trabalham com agricultura, crotalária e adubação verde, surgiu a partir da grande quantidade de demandas que chegavam até eles requisitando informações e até recomendações sobre a utilização da planta no combate à dengue.

A pesquisadora alerta que há muitas informações divulgadas incorretamente. “A disseminação dessas espécies se dá por sementes e não por mudas; alguns dizem até que essas espécies são carnívoras e predadoras”, alerta Elaine Wutke.

O engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) Leandro Wildner – que também contribuiu para o trabalho publicado pelo Instituto Instituto Agronômico – alerta que a divulgação das possíveis contribuições das crotalárias no combate ao Aedes aegypt pode provocar uma falsa sensação de segurança, capaz de diminuir os cuidados praticados pela população: “Torna-se muito mais fácil depositar a responsabilidade na ação de uma planta, como a crotalária, do que cada um fazer a sua parte.”

A exemplo de outras cidades, em julho deste ano, o Horto Municipal de Uberada (MG) realizou o cultivo da planta e disponibilizou cerca de 15 mil mudas para a população. Em resposta, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos explicou que não houve um estudo para medir os impactos dessa ação, e os possíveis resultados não foram contabilizados.

Foto de capa: Clenio Araujo/Embrapa