O último da América Latina

Após o fechamento de vários cinemas “para-brisas” espalhados pelo Brasil, o Cine Drive-in de Brasília é o único em funcionamento no país

Larissa Nogueira e Álef Calado

Se você é daqueles que adora comer, conversar, atender ao telefone ou ficar de olho nas redes sociais, enquanto assiste ao filme, seu lugar é no Cine Drive-in! O cinema a céu aberto de Brasília é o último em funcionamento e o único na América Latina. Localizado no centro da cidade, próximo ao Estádio Nacional, a tela gigantesca e o sistema de som estéreo prometem transmitir toda a magia da sétima arte para os automóveis acomodados nos 15 mil metros de terreno asfaltado.

Há 26 anos administrando o local, a nutricionista Marta Fagundes, 55, confessa que já passou por situações muito difíceis e que já pensou em fechar o cinema inúmeras vezes. “Assumi a gestão quando os donos do cinema foram embora e eu resolvi ficar. Daí, constituí a empresa, comprei alguns equipamentos”, lembra.

Mesmo com as dificuldades, Marta destaca o diferencial entre o cinema “para-brisa”e as salas tradicionais: conforto e facilidade de acesso. “A pessoa pode vir de bermuda, pode mexer no celular, conversar… Pessoas com deficiência também têm acesso mais fácil por não precisarem deixar seus carros para se locomover”, explica.

Entre as comodidades, se destaca o rápido atendimento em caso de “pane”. Se a bateria do carro descarrega após a sessão, não há motivo para preocupação. Nós – repórteres do Artefato – tivemos a experiência e comprovamos que os funcionários do Cine Drive-In estão preparados para auxiliar em situações como essa. Basta sinalizar para o garçom imediatamente te atender. O estacionamento do local também é bastante seguro.

Marcelo Faria, 48 anos, diz que sempre vai ao cinema pelo conforto que ele traz aos espectadores, “Eu me sinto totalmente a vontade nesse cinema, já vim com esposa e com meu filho. Hoje, eu curto tanto, que se eles não quiserem me acompanhar, eu venho sozinho”, disse ele.

 

Amor em ação

Cairo Oliveira e Kamila Stephany, 23 e 20, tiveram o seu primeiro encontro de namoro no Cine Drive-in. “Foi o melhor primeiro encontro da minha vida. Ouvimos o filme na altura que nós queríamos. Nesse dia, nós ficamos e eu só não pedi ela em namoro porque eu não tinha uma aliança para firmar o compromisso. Isso tudo deitados no porta malas do carro, com os bancos rebatidos”, conta Cairo. Ela contou que o primeiro encontro não poderia ter sido melhor e que todo mês eles voltam ao local para reviver a história e assistir aos filmes.

 

Itinerante premiado

Ganhador de quatro prêmios no Festival de Cinema de Gramado em 2015, O Último Cine Drive-in, filme dirigido pelo cineasta Iberê Carvalho foi gravado nas dependências do cinema. A película conta a história do jovem que se vê obrigado a voltar à Brasília, sua cidade natal, após descobrir que a mãe estava doente. O garoto reencontra o pai, dono de um cine drive-in ameaçado de demolição por não atrair mais espectadores. Marta Fagundes se entusiasmou com o filme. “Eles levaram quase dois meses pra finalizar a produção. Apesar das várias externas, a maioria das cenas foram gravadas aqui. Eu nunca pensei que o Cine Drive-In fosse passar um filme feito no próprio Cine Drive-In”, relata.

Iberê Carvalho conta que o filme discute a importância dos espaços culturais na sociedade atual. “Estamos falando do Cine Drive-In, mas poderia ser de qualquer outro cinema que acabou fechando”, relata. O cineasta conta que as expectativas com relação ao filme foram crescendo aos poucos. A obra foi muito bem recebida no Festival do Rio e ganhou vários prêmios no Festival Internacional de Cinema de Punta del Este. “Quando ele chegou em Gramado e levou aquele tanto de prêmio, as expectativas já estavam lá em cima. A distribuidora também já planejava um número maior de salas, em mais cidades”, comemora.

O Último Cine Drive-in estreou no dia 19 de agosto, no cinema para-brisa de Brasília. A exibição contou com uma fila de mais de cinco quilômetros e lotou as 500 vagas do estacionamento. “É um filme simples, singelo, sem muitas peripécias. Foi muito bonito ver que as pessoas abraçaram o filme desta forma”, relata Iberê.

 

Foto de capa: Thais Miranda