É preciso esclarecer

Depois de 34 anos da descoberta da aids, o preconceito ainda existe. Campanhas, diálogo e informação ajudam a mudar a vida de pessoas

Nathalia Melo

Filadélfia, Estados Unidos, 1993. Época em que a aids era quase que exclusivamente relacionada aos homossexuais e o preconceito, maior que o senso de humanidade. Andrew Beckett, 26, advogado homossexual de sucesso, descobre que tem a doença e, por isso, é demitido. Com dificuldade para encontrar alguém que o ajude, o rapaz contrata um advogado homofóbico, único disposto a defender sua causa. A história poderia ser real, mas se trata do filme Filadélfia, de 1993. Na trama, Andrew não teve acesso ao tratamento e desenvolveu aids. Hoje, no entanto, é cada vez mais possível controlar o vírus e ter uma vida normal.

O ator e diretor Gabriel Estrëla descobriu aos 18 anos que era soropositivo. Apreensivo e esperando o resultado, uma moça tocava no violão: “É só isso. Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte”. Foi ouvindo esses versos que teve consciência de sua condição. No momento, refletiu sobre a ironia dessas palavras. “Parecia uma sentença de morte. Pensei, que sorte é essa?”

Nathalia Melo
Gabriel Estrela acredita que o debate sobre a aids é importante para desconstruir discursos discriminatórios (Nathalia Melo)

Hoje, cinco anos depois, acredita que nada aconteça por acaso. O boa sorte da música fez sentido. Ao chegar em casa, foi acolhido e apoiado pela família e conheceu uma ONG, onde teve a oportunidade de ajudar outras pessoas. “Se isso não é sorte, eu não sei o que é.”

Após a exposição na internet, ele percebeu que era o momento para iniciar o projeto Boa Sorte. O principal produto é uma peça teatral que aborda a história de Gabriel, além de outros grupos como grávidas e travestis.

“Não existe uma mensagem que eu possa passar. Principalmente porque não é uma questão tão simples. Não quero dizer que HIV é legal, que viver com ele é tranquilo. O que eu quero, no entanto, é que as pessoas falem a respeito”, acrescenta Gabriel. Para ele, o debate é uma oportunidade de desconstruir discursos discriminatórios.

Panorama

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que, no mundo, 35 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV. Desses, 19 milhões não sabem que têm o vírus.

Na América Latina, 47% dos novos casos registrados em 2013 foram no Brasil, indicando que o país lidera o ranking na região com 734 mil soropositivos, segundo o Ministério da Saúde. No país, 20% das pessoas infectadas não sabe que têm o vírus. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) divulgou informações que mostram o aumento no número de casos no Brasil. Entre 2005 e 2013, o crescimento foi de 11%. No entanto, a tendência, segundo pesquisadores, é de diminuição.

Segundo o Unaids, um terço das infecções na América Latina em 2013 ocorreu em pessoas entre 15 e 24 anos. O Ministério da Saúde prevê que atualmente 13 mil pessoas no Distrito Federal tenham o vírus. Grande parte dos soropositivos brasilienses é constituída por homens brancos, heterossexuais, entre 30 e 44 anos, embora a associação com os homossexuais aconteça desde a descoberta da doença, em 1981.

Transexuais, homossexuais, profissionais do sexo e seus clientes e usuários de drogas injetáveis são, segundo a ONU, grupos com alta vulnerabilidade. De acordo com o coordenador de Projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Vagner de Almeida, a doença está localizada em setores menos privilegiados – pobres, jovens, gays e terceira idade.

Por isso, a diretora do Unaids no Brasil, Georgiana Braga-Orillard, acredita que o foco das campanhas deva ser para os jovens: “O jovem de hoje faz parte de uma geração que nunca teve tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, não está sendo capacitado para filtrar, interpretar e usar toda essa informação.”

Ilustração: Gustavo Jácome
Ilustração: Gustavo Jácome

Esperança

“Hoje temos 15 milhões de pessoas em tratamento e casos de sucesso”, comemora Michel Sidibé, diretor executivo do Unaids. A meta estabelecida há 15 anos de oferecer tratamento medicamentoso para 15 milhões de pessoas foi cumprida nove meses antes do programado.

Essa conquista está presente no relatório Como a aids mudou tudo – 15 anos, 15 lições de esperança da resposta à aids, que conta a história da doença, como ela alterou a saúde e o desenvolvimento global, além de apontar que é possível acabar com a epidemia até 2030.

De acordo com o Ministério da Saúde, caso o tratamento seja iniciado logo após o diagnóstico, há 96% menos chance de transmissão do vírus. No Brasil, até 2013, o paciente só poderia recorrer aos medicamentos após apresentar sintomas, isto é, não bastava ter o vírus. Atualmente é possível iniciar antes. No país, os cerca de 400 mil soropositivos têm acesso aos remédios gratuitamente.

Discriminação

Georgiana afirma que não será possível acabar com a epidemia se não houver diálogo sobre discriminação. Gabriel concorda, pois para ele não falta informação e nem acesso a ela, mas sim diálogo. Por exemplo, em relação ao sexo. Ele diz que é comum pessoas diagnosticadas terem medo de manter relações. “Esse medo não é só por uma questão de estar se sentindo vulnerável, mas porque o indivíduo começa a se ver como uma arma biológica”.

Segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, os pacientes são amparados pela lei. Em 1989 foi criada a Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da Aids que lista o direito à informação, ao tratamento, à privacidade e ao sigilo.

De acordo com o documento, as empresas não têm o direito de obrigar nenhum candidato ou funcionário a fazer o teste ao começar o novo emprego. Não se pode demitir alguém pelo simples fato da pessoa ter o vírus HIV. Em caso de discriminação, o indivíduo pode fazer um boletim de ocorrência, recorrer à defensoria pública ou a algum órgão de proteção de direitos, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Há portais e conteúdos na internet que compartilham experiências de soropositivos e falam sobre o assunto, ajudando a desmistifica-lo, tais como Jovem Soropositivo e Soropositivo.

Foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil