Pegue e não se apegue

Troca de experiências e ações de solidariedade na internet geram iniciativas empreendedoras. A moda é ajudar pessoas

Marianne Paim

 

Praticar o desapego não é uma tarefa fácil, ainda mais quando o objeto tem sua história. Um dos primeiros contatos que muitos têm com a ação voluntária é passar para frente brinquedos que são deixados de lado. Mas o que os apegados talvez não saibam é que aquele sapato que já não serve, os livros já lidos e cheios de poeira da estante, podem virar  um tipo de negócio.

No Brasil, o empreendedorismo social ainda está nos seus primeiros passos. Segundo o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), em parceria com Ipsos Public Affairs – instituição que realiza pesquisas sobre consumo e comportamento, o brasileiro não se sente estimulado para a doação e voluntariado. O país também aparece no World Giving Index 2014, ranking que mede o índice de doações entre 135 países. Ele se encontra na 90ª posição subindo apenas uma posição em comparação ao estudo anterior.

Contrariando os dados, no Distrito Federal, os jovens empreendedores têm mostrado a importância de iniciativas para poder ajudar os que realmente precisam e de uma maneira inovadora. A ideia da The Street Store é dar a liberdade de escolha para os que precisam através da exposição de roupas e objetos doados que podem ser levados gratuitamente, simbolizando uma “loja”. O projeto que surgiu na África do Sul no ano passado, chega a Brasília, por meio de sete estudantes da Universidade de Brasília (UnB). Para eles, a ação social também tem outra finalidade, desconstruir a ideia de morador de rua. “Eles são pessoas que têm sonhos e história como nós, mas muitas vezes são considerados quase que “invisíveis”, por estarem à margem da sociedade”, declaram.

 

Na prática

Além da comodidade de ônibus saindo de cidades do Entorno do Distrito Federal para o Museu Nacional, centro de Brasília, onde aconteceu a ação de voluntariado, os clientes foram recebidos com café da manhã. Além das compras, era possível cortar o cabelo, fazer exames básicos de saúde, brincar com tinta e para a hora do almoço: sopas. O morador de rua, Elton Mendes, 49 anos, disse que esse tipo de evento deveria acontecer mais vezes. “É uma pena que essa situação de rua nunca vai acabar”, lamenta quando se lembra da própria realidade.

Bianca Amaral

Aparecida Ferreira, 30 anos, levou o filho para se divertir na área de recreação. “A gente sai da rotina e isso é bom”, diz a recicladora de lixo que observou atenta a movimentação. Para ela, o evento é um exemplo de luta contra o preconceito. “Ninguém aqui é indiferente com a gente. Não importa se você está sujo ou mal arrumado, eles [voluntários] te tratam da mesma forma”, comenta.

Em 40 dias a equipe arrecadou mais de 6mil peças entre roupas, brinquedos, sapatos e outros acessórios. Pontos de coleta foram disponibilizados em todo o DF entre eles academias, padarias e supermercados.

 

Internet solidária

As redes sociais têm sido uma aliada para que os projetos saiam do papel e estimulem cada vez mais voluntários. Para a sua primeira edição, o The Street Store recorreu ao crowdfunding – financiamento coletivo, para arcar com custos do evento que ocorreu no Museu Nacional da República.

O Atados é uma rede social que também utiliza a internet como principal meio para desenvolver seu trabalho e “juntar gente boa”. O intuito é unir pessoas que querem fazer parte de algum projeto social, iniciado por ONGs ou por pessoas independentes. “Percebemos que tinha muitas pessoas querendo fazer, principalmente jovens, mas não é tão fácil encontrar as informações na internet”, conta um dos fundadores, Andre de Geus Cervi, 25 anos.

A rede disponibiliza várias ONGs e suas variadas ações para que voluntários se identifiquem e partilhem a ideia. Com sede em São Paulo, o Atados também está presente em Brasília desde 2013, desenvolvendo o compartilhamento mútuo de experiências e de solidariedade. Para Deborah Andrade, 22 anos, representante da iniciativa na Capital, o que falta é uma comunicação clara entre instituições e interessados em se voluntariar. “Pessoas pensam que não existem ações acontecendo e que é muito difícil entrar em uma instituição”, relembra.

Além de ideias autorais, chega a 40 o número de ONGs inscritas na plataforma no DF. Conhecer histórias e trocar experiências para incentivar e promover a solidariedade. Essa moda de ajudar e entender o outro nunca vai deixar de ser tendência.

 

28 de agosto: Dia do Voluntariado

Você sabia que qualquer um pode criar a sua loja de rua ou participar de qualquer ação social sem nenhuma dificuldade? Se a ideia é ajudar quem precisa, existem grupos que estão dispostos a se unir para fazer o bem.

 

Conheça mais sobre os projetos em: https://www.facebook.com/thestreetstoreorg https://www.atados.com.br

 


Foto de Capa: Bianca Amaral