Cabelo, cabeleira, cabeluda

O verso não se encaixa só na harmonia da música de Arnaldo Antunes. Os pelos podem ser uma opção para outras partes do corpo

Mariane Cunha

Peitos grandes, bunda avantajada, cintura aparente, maquiagem impecável e depilação em dia – axila, perna e buço, obrigatoriamente. Esses são requisitos estéticos básicos necessários para se transformar em mulher. Meninas são influenciadas desde a infância a optarem pelas lâminas e ceras como forma de se embelezar. Crescem, conhecem e escolhem o que fazer com seus corpos. Então, a necessidade de se depilar, às vezes, fica de lado.

A feminista Juliana Watson, 35 anos, explica que desde criança foi ensinada a lidar com seus pelos. “Achei que eu tinha alcançado uma fase da vida, que isso era uma obrigação, parte de ser mulher”. O documentário londrino My Body, My Hair produzido por Veronika Reichenberger, estudante da Universidade de Londres, enfatiza tais construções sociais. Soofiya, personagem do documentário, ressalta: “Nós percebemos que crianças se preocupam com as coisas que elas nem têm ainda. Elas querem depilar a perna e ainda nem têm pelo.” Para saber mais veja o documentário logo abaixo.

Portanto, ao contrariarem padrões estabelecidos a primeira dificuldade é se impor em casa. Entre frases constantes de reprovação do pai, como “coisa de homem” e expressões contrariadas da mãe, Amanda Morais, 21 anos, estudante de relações internacionais, decidiu parar de se depilar. Tirar seus pelos era algo normal, ir à depiladora era quase um evento social. Ela não gostava, sentia dor.

Amanda Morais se sente mais confiante após aceitar seus pelos (Mariana Brauna)

Foi no ônibus que descobriu que havia outra opção. “Vi uma moça linda que, ao passar pela roleta, levantou os braços revelando axilas não depiladas. Fiquei em choque. Até então, nunca tinha cogitado a ideia de que uma mulher pudesse simplesmente escolher não se depilar”, relata Amanda.

Para a estudante de antropologia, Raquel Prosa, 19 anos, a experiência foi outra. Sua mãe não se depilava, não gostava. Raquel insistia para sua mãe arrancar os pelos. “Na adolescência, o que as amigas fazem é muito importante”, conta. Então, ao entrar na faculdade e ter acesso ao apoio de outras mulheres facilitou o abandono de seus encontros com a depiladora. “Conheci pessoas que também não encontravam sentido na depilação”.

A doutora em Antropologia da Comunicação, Florence Dravet, explica que os fios mais longos e visíveis, algo natural do ser humano, começam, de acordo com determinada sociedade, a perder espaço. “O homem, ao longo do tempo, aprende a civilizar o seu corpo. Construir por meio do processo civilizatório uma representação própria. Afastar-se da origem animal”.

Izis Morais, antropóloga especializada em gênero, complementa dizendo que, dentro do sistema de sexo/gênero, criam-se mecanismos simbólicos para promover a distinção. “Violências morais e físicas – que mantenham os pólos, masculino e feminino, separados. Logo, tudo que indicar a mistura será um dilema social, em maior ou menor grau”.

Anti-higiênica?

O discurso de higiene básica é totalmente inaceitável para as adeptas dos pelos. Elas já possuem resposta na “ponta da língua” para esse tipo de questionamento. “Muitos homens não se depilam e são limpinhos e cheirosos”, critica Amanda. Portanto, depilar, ou não, passa a ser uma decisão puramente estética. “Eu me depilei por muitos anos e isso nunca tornou essa higienização desnecessária”, contrapõe.

Florence Dravet destaca que existe um discurso científico da saúde, o bem-estar coletivo e a higienização. “Você não é livre para lidar com sua saúde, tem que obedecer ao que o conhecimento científico da época, na qual vive. Asseptizar o corpo, não lembrar justamente toda a questão animal”. As cobranças incidem sobre categorias sociais diferentes e de forma mais dura no caso das mulheres. “Nossos padrões estéticos, atualmente, têm sido muito cruéis com corpos femininos”, acrescenta Izis Morais.

Mesmo em meio ao forte discurso da higiene pessoal, as adeptas dos pelos buscam a liberdade e a necessidade de serem protagonistas de seus corpos, em vez de apenas seguir a sociedade. Dessa maneira, os padrões únicos, sem possibilidade de escolhas incomodam. “Cada uma pode experimentar com seu corpo e não apenas seguir cegamente um padrão”, acrescenta Juliana.

Raquel Prosa questiona que a depilação se imponha de maneira tão agressiva, principalmente, para as mulheres. “Não consigo entender as razões de o discurso não valer para os homens. Eles têm o direito de influir na dinâmica de seus corpos. Nós, mulheres, não”.  A organização social e política brasileira o comportamento e o sentimento dos homens são levados em consideração mais facilmente. “O padrão masculino, desde que hegemônico, também é menos questionado e mais valorizado”, reitera Izis.

O livro O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível, de João Francisco Duarte, explica que a forma do ser humano sentir a si próprio e ao mundo de modo integrado é por meio da estética. Assim, é na busca da identidade que algumas mulheres escolhem ficar com pelos. Batalham pela aceitação para que consigam fazer parte desse mundo num todo. E neste caso, a ordem dos fatores irá, sim, alterar o produto. A luta pela permanência dos pelos vem primeiro pelas mulheres, por serem capazes de escolher, de se amarem e se aceitarem, e depois pela oportunidade e o espaço no padrão estético de beleza no mundo.

Portanto, ainda existem problemas ligados a dificuldade de socialmente a ideia do belo e do pelo não poderem se complementar ainda deixa algumas adeptas inseguras. Contudo, abrem mão do conforto, aplicado ao padrão estético para se sentirem donas de seus corpos. Ir além das expectativas da comunidade para serem mulheres, não o tipo certo, mas a quem escolheram. Amanda Morais conta no vídeo abaixo como essa experiência modificou sua vida.

Shannon, que também participou do documentário londrino, sofreu bullying de um garoto da escola por causa da axila peluda, decidiu depilar. Então foi até o garoto e falou: “Olha, você vê uma grande diferença? Está feliz agora? O que acha?”. Ele respondeu: “Não, não tem tanta diferença”. Quem sabe com o aumento de mulheres decididas e mais esclarecidas como tal, a obrigatoriedade da depilação constante abra espaço para mulheres que consigam lidar melhor com todos os seus tipos de fios e, desta forma, o mundo consiga ver que não tem tanta diferença.

Foto de capa: Mariana Brauna