Lixo eletrônico, uma ameaça à sociedade

 Para 2017, a previsão é de que 65 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos sejam gerados. Volume equivale a 11 pirâmides de Queóps

Adrienne Ribeiro

Você já deve ter tido um aparelho celular, um computador, uma TV, ou qualquer outro aparelho eletrônico que um dia deixou de fazer parte da sua vida, seja por necessidade, mau desempenho, ou porque você mesmo quis trocar. Nesses casos, é importante saber que esses aparelhos devem ser descartados em locais adequados.

No Brasil, o tema ganhou força e chamou atenção depois que a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um estudo em que o país aparece como um dos maiores geradores de resíduos eletrônicos entre os países emergentes. De acordo com o especialista em geologia e professor de Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Brasília (UCB), Luiz Fernando Kitajima, em 2012, o Brasil produziu 2 milhões de toneladas de lixo eletrônico e há uma estimativa que em 2017, o volume mundial seja de 65 milhões de toneladas, ou seja, serão 65 bilhões de quilos só de equipamentos eletroeletrônicos descartados. Em termos de volume, esse total equivale a 11 pirâmides de Quéops – a maior e mais antiga de Gizé, no Egito.

“Seguindo essa projeção, se dividir o volume previsto para 2017 pelo total de pessoas no planeta, cada pessoa produzirá aproximadamente 9 kg de resíduos eletrônicos”, enfatiza o professor. Segundo ele, essa atitude traz consequências sérias ao meio ambiente: volume crescente, substâncias químicas potencialmente perigosas, como chumbo, mercúrio, fósforo, cobre e zinco, além do plástico que é altamente tóxico ao ambiente e leva décadas para ser degradado.

Um exemplo de lixo eletrônico que tem forte impacto ambiental são as antigas TVs de tubo. Elas possuem, na parte de trás, uma espécie de tubo de vidro que contém grandes quantidades de chumbo e fósforo. Segundo o especialista em geologia, aparelhos eletroeletrônicos que têm bateria, operam com mercúrio, zinco e cobre, ao ficarem expostos ao ar livre, podem ser oxidados e enferrujar, contribuindo para a contaminação da água e do solo.

 

Saúde

Dentre todos os compostos químicos encontrados nos resíduos eletrônicos, o que mais chama atenção é o chumbo, definido por Kitajima como uma espécie de veneno cumulativo. O composto pode entrar na água, no solo ou até ser inalado no ar, e quando isso acontece ele tende a acumular no organismo. Uma das doenças causadas pelo excesso seja por inalação ou ingestão, de chumbo é o saturnismo, uma intoxicação aguda ou crônica, que pode levar a morte.

As principais manifestações causadas pela exposição do chumbo no organismo são: gastrintestinais, renais, reprodutivas, hematológicas, neurológicas e carcinogênicas. Dentre os sintomas mais comuns estão fraqueza, lentidão, distúrbios psicológicos, vômitos violentos e persistentes, anemia, convulsões e coma.

 

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Possíveis soluções

Visando amenizar os futuros problemas ambientais, sociais e econômicos causados pelo excesso de resíduos eletrônicos foi implantada a Lei nº 12.305/10, denominada como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O regulamento prevê que é de obrigação dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de produtos eletrônicos estruturar e implantar o sistema de logística reserva, que consiste no retorno do produto, indo do consumidor para o seu produtor.

Mas cada pessoa é responsável pelo lixo eletrônico que produz. Exemplos de soluções para o material são: reciclagem, descarte controlado, método que trabalha com a separação dos materiais que podem ser reaproveitados, enquanto o restante é acondicionado em aterros sanitários adequados e destinados para esse fim. E por último, o reúso. Todas essas possibilidades são técnicas cientificamente eficazes que os consumidores podem procurar para fazer a disposição do seu lixo eletrônico.

Para o especialista em geologia é preciso implantar políticas de incentivo a empresas que trabalham com reciclagem e reúso, apoiar ONGs que lidam com a inclusão digital. No primeiro caso, promover a revenda de aparelhos reconstituídos, como celular, a custo inferior para pessoas carentes, e o reaproveitamento, além de campanhas educativas.

 

A busca pela mudança

Em 2009, insatisfeito com um amontoado de computadores e televisores inoperantes em um depósito da UCB, o professor do curso de tecnologia da informação Fernando Goulart propôs a um grupo de colegas, incluindo Kitajima, o reaproveitamento do material. E-Lixo Universitário, como foi chamado, começou com o desmonte dos resíduos e depois a criação de novos computadores que serviram para outro projeto da universidade, a Alfabetização Cidadã, onde é promovida a inclusão digital. A partir daí o propósito se intensificou e outras instituições e escolas do Entorno ganharam computadores remontados.

Na procura por soluções sustentáveis para os resíduos eletrônicos e de telefonia da Universidade de São Paulo (USP), em 2009, a Prefeitura do Campus USP da Capital (PUSP-C), criou o Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (CEDIR). O projeto recebe resíduos da universidade e de comunidades próximas. “O material é selecionado, testado e reutilizado quando é possível. O restante é vendido como sucata ou encaminhado para a logística reversa, quando existe. Havendo material que não se enquadre nessas três linhas de gerenciamento, encaminhamos para descontaminação ou destinação final ambientalmente adequada”, explica Aline Mellucci, chefe técnica de Gestão de Resíduos e Recursos Naturais da Prefeitura da USP.

 

Locais

De acordo com o SLU, não tem uma quantidade exata de locais no DF destinado para esse fim, por isso o órgão orienta que os consumidores procurem lojas, ONGs e cooperativas que realizam esse recolhimento. São exemplos a Zero Impacto, a Estação de Metarreciclagem e a Cooperativa do Varjão (CRV).

Estação de recolhimento de lixo eletrônico da Zero Impacto (Gláucia Cardoso)
Estação de recolhimento de lixo eletrônico da Zero Impacto (Gláucia Cardoso)

 

Em seu site, a empresa Zero Impacto fornece uma lista dos pontos que pode ser feito o descarte do lixo eletrônico ou o seu agendamento. Ao todo somam 17 locais espalhados por todas as Regiões Administrativas e o Plano Piloto.

Veja dos pontos para o descarte do lixo eletrônico no site da empresa Zero Impacto

Foto de capa: Mylena Tiodósio